Monday, January 27, 2003

QUANDO SE ZANGAM AS COMADRES...


... os portugueses deviam prestar mais atenção. Não propriamente para enriquecer o seu vocabulário, mas porque mais do que as pérolas de estilo, vem sempre à rede algum peixe. Quando as imobiliárias concorrentes da Cottees de Vasco Pereira Coutinho souberam inevitável o negócio que tanta celeuma gerou, trataram de fazer publicar nos seus órgãos próprios (Jornal do Imobiliário n.º 53, Fev. 2003) os espantosos termos do contrato. Entre outras coisas, figuram entre as missões do parceiro privado, ao qual o estado proporcionará metade dos lucros que houver a troco de nada, a adjudicação de todos os serviços a contratar por ajuste directo. Se não se trata aqui de um enorme armazém de sacos azuis, além de um perfeito instrumento de financiamento partidário, então não sabemos o que são sacos azuis nem estratégias de financiamento partidário. Este detalhe, absolutamente público, não levantou celeuma alguma nos jornais, que parecem ter dado ao assunto, passada a primeira semana e o mais superficial e inofensivo da questão, uma estranha compreensão.



ANGOLA É NOSSA, QUERIDOS CONTRIBUINTES

O Diário de Notícias (07.12.2002) publicou, há semanas, uma curiosa notícia sobre a renegociação da dívida de Angola. Dizia ela que o Estado Português havia reduzido a dívida estado a estado em 36%, tendo proposto às empresas e à banca um perdão de 65%, empresas que, contudo, eram livres de não aceitar. Caso em que tratariam elas próprias, a partir daí, dos seus interesses. Estes termos vão ao arrepio do que anteriormente já tinha sido assumido, sem nunca se perceber do artigo qual a vantagem de Portugal em assinar acordos deste tipo - o Governo recusou-se por alguma estranha razão a explicar? - além do pagamento a pronto de 27% da dívida. O mais que se soube do assunto foi a recusa de algumas empresas em se ficarem pelos 35% que lhes seriam - sabe Deus quando, como e se - pagos, tão simplesmente porque as entidades a montante, a quem deviam, também não aceitavam ser pagas a 35% do valor dos bens e serviços respectivos. Mas tudo ficou por esclarecer sobre os porquês deste acordo, que o governo teceu no segredo dos gabinetes. Porquê estas percentagens, porquê no fim da guerra, e porque tem um país rico necessidade de não pagar a um país pobre e em dificuldades (Portugal) aquilo que lhe deve, quanto mais não fosse em matérias primas. E porquê se constituiu ainda, adicionalmente, o Estado Português como fiador de uma nova dívida de mais dois mil milhões de euros de Angola à banca portuguesa, fazendo reverter o ónus da responsabilidade sobre os contribuintes da fazenda pública. Está a banca portuguesa necessitada deste tipo de clientes? Sim, se for o Estado a pagar... Além do excessivo número de brancas da notícia - foi a notícia possível? queremos crer que sim... - é neste contexto que o governo angolano ainda aguarda investimento estrangeiro e, particularmente, de Portugal. Será caso para dizer que esse país magnífico, morto de fome e pleno de farturas, pode esperar sentado. Ou será que a estratégia de imagem angolana só deixa cair nódoas deste tipo quando se trata de Portugal?